"O Rito" de Ingmar Bergman

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ingmar Bergman sempre foi considerado um dos maiores cineastas da história. Nascido na Suécia, em 1918, é reconhecido, também, por sua capacidade, não apenas qualitativa como quantitativa, de produção. Entre 1945 e 2003 Bergman produziu, pelo menos, 53 filmes, o que nos traz uma média de quase 1 por ano.

O Rito (Ritten), produzido em 1969, é um dos últimos filmes da fase mais experimental do cineasta sueco. Ao lado de Persona e da conhecida Trilogia do Silêncio (com Através de um espelho, Luz de Inverno e O Silêncio), o filme veio em uma das fases de pico de Bergman. É uma peça de difícil compreensão, com diálogos extremamente corridos, personagens bastante perturbadores e enquadramentos claustrofóbicos.

Inédito no Brasil, O Rito foi lançado recentemente em DVD por estas bandas. Concebido para ser publicado diretamente na televisão, foi produzido com baixo orçamento. Talvez por isto sua história tenha sido desdobrada com apenas quatro personagens, pouquíssimos efeitos de tela e nenhuma filmagem externa. Isto não diminuiu sua beleza fotográfica, idealizada por Sven Nykvist, que consegue traduzir de maneira excepcional a psiquê comprimida dos personagens. O filme conta, ainda, com a participação do próprio Bergman, no papel de um padre, que aparece em apenas uma cena e não possui nenhuma fala.

A história se passa em algum país europeu não especificado. Três artistas, Hans Wikelman (Gunnar Bjornstrand), sua mulher Thea von Ritt (Ingrid Thulin) e Sebastian Fisher (Anders Ek), mundialmente famosos, são investigados por um juiz (Erik Hell) sob a acusação de que seu espetáculo conteria cenas de indecência. O juiz, obcecado por seu trabalho, tenta a todo o momento invadir o interior dos artistas, descobrir seus sentimentos, na busca de encontrar a resposta para as acusações sofridas pelos três. As cenas do filme, desta forma, intercalam-se entre interrogatórios protagonizados por Erik Hell e diálogos entre os artistas que servem para externar ao público a forma como se sentem acuados perante as instituições judiciais.

O filme se desenrola com a incessante inquisição levada a cabo pelo juiz, que, de maneira avassaladora, tenta desnudar os sentimentos dos artistas investigados. Suas capacidades, no entanto, encontram-se, frequentemente, aquém do entendimento daquilo que aqueles tentam representar com seu espetáculo, e mesmo acerca do que sentem e como conseguem exprimir tais sensações. Em uma das cenas, Sebastian Fisher, sendo interrogado, declara que acha o juiz um ser repulsivo, incapaz de julgar qualquer coisa acerca da arte pelo simples fato de que sua racionalidade pequeno-burguesa não lhe permitiria compreender o papel desta.

As cenas de Bergman, desta forma, comportam-se como uma sequência de reflexões acerca do papel da arte e dos artistas no mundo. O próprio nome do filme traz à tona esta percepção. De uma forma geral, a arte comporta-se como um momento de reencantamento do mundo por parte dos próprios homens. Uma forma de conhecer a realidade através de uma mitologia criada pelos artistas, que deve servir para trazer ao público cenas de sua própria vida. Na mesma cena citada acima, Sebastian Fisher tenta explicar ao juiz que não possui religião, que ele é seu próprio deus, criador de seus anjos e seus demônios.

A impressão passada pelo filme é a de que o conceito de arte trabalhado por Bergman aproxima-se muito daquele cunhado pelos surrealistas franceses do último século. Nos Manifestos do Surrealismo Breton e seus companheiros afirmavam a necessidade de uma arte libertária, capaz de construir mitos que reencantassem o mundo aos homens. Uma tentativa de destruir a "gaiola de aço" da racionalidade burguesa, imposta pela lógica mercantil, de reencontrar o lugar da imaginação, da inventividade e da psiquê humana, de uma forma que pudesse expressar-se livremente, sem as constrições impostas pela sociabilidade do capital.

Não por acaso, a história do grupo Surrealista francês confunde-se com a da esquerda francesa do século XX. Estando entre os artistas organizados que se filiaram ao comunismo, o surrealismo também esteve entre os primeiros segmentos a romperem com a lógica stalinista dos Partidos Comunistas degenerados pela burocratização soviética. Quanto a Bergman, sua atividade política não esteve entre seus principais feitos, o que fez restar poucas informações acerca da mesma. De qualquer maneira, talvez instintivamente, o conceito artístico passado pelo cineasta sueco demonstrou-se idêntico, no essencial, ao dos artistas franceses da década de 1930.

Assim, é possível notar como a arte, representada pelos artistas de Bergman, repudia de maneira impulsiva a racionalidade burguesa, representada pelo juiz. Os artistas reiteradamente confessam os receios que sentem perante a figura do magistrado. Ainda mais, manifestam sua reupulsa frente a sua forma de agir, pensar e ver o mundo. Não é possível para eles estabelecer uma linha de diálogo entre a arte e a razão desta época. O judiciário, representando a manutenção da ordem, precisa sufocar quaisquer manifestações que contestem-na. A arte, por outro lado, se tomar para si, sinceramente, a responsabilidade de transmitir ao público sua própria verdade, terá de romper com as amarras fetichizadas de uma sociedade que se vale mais da valorização das coisas do que dos homens.

Não por acaso, entre os três atores, Hans Wikelman, o mais racional entre eles, é aquele que melhor consegue lidar com a situação. Hans é tido como o líder da trupe teatral. Ele costuma cuidar dos negócios de todos, tratar com os agentes e advogados, conceber os contratos etc. Em determinada cena, confessa que sente-se, no entanto, menos talentoso que os outros. Com isto, é capaz de utilizar sua inteligência para construir o diálogo mais próximo entre um dos artistas e o juiz. Contudo, apenas aparentemente demonstra-se menos desesperado que seus companheiros. Não conseguindo convencer o juiz a deixar de lado o interrogatório de sua mulher, Wikelman tenta suborná-lo, o que acaba complicando sua situação.

É desta maneira que o filme tenta demonstrar o conflito entre a arte e a ordem. Uma luta de morte que deve refletir exatamente o combate da humanidade por sua própria emancipação. O mais impressionante aspecto de aproximação entre Bergman e os Surrealistas é a forma como concebe a arte como uma maneira profana de iluminar o saber humano. O Surrealismo cunhou o conceito de "iluminação profana" que deveria servir mesmo como uma corruptela da iluminação religiosa. Desta maneira, a arte, constituída pelos mitos conscientemente criados pelo artista, deveria servir para iluminar a realidade frente aos homens. Isto, contudo, não se confunde com o saber religioso, muito pelo contrário, constitui um saber que, inteiramente, coloca o homen como o centro de construção da própria humanidade. A única religião permitida aos homens seria a arte, e os únicos sacerdotes, os artistas. Em uma das cenas de O Rito, Sebastian Fisher confessa a Hans Wikelman que eles são os atores e espectadores de uma mesma peça, o que reflete a identidade entre os sentimentos do artista (humano) e os do público (também humano) iluminados profanamente pela obra de arte.

Com isto, o filme culmina com uma apresentação particular do número cujo qual o judiciário esforça-se por censurar. Os artistas preparam a cena no gabinete do juiz durante uma madrugada. A cena representa um ritual pagão, com forte apelo erótico envolvendo falos falsos e nudez feminina. Durante o número, um dos artistas bebe o reflexo de Deus em uma vasilha de sangue. À medida que preparam e encenam o número, os artistas fazem com que o magistrado perceba sua própria realidade. Este começa a confessar desesperadamente seus medos e receios, seus papéis e incapacidades. Os interrogados trocam de papel com o interrogador e, ao final, Erik Hell encena a morte do juiz por ataque cardíaco. A morte da racionalidade burguesa e o triunfo do saber artístico.

No final, os letreiros indicam que o espetáculo foi censurado, que os artistas foram condenados ao pagamento de multas graças a isto e que nunca representaram novamente no país em questão. O filme de Ingmar Bergman é, desta forma, uma pesada crítica à censura, sem dúvidas. O que o torna ainda mais tributário do pensamento surrealista, que rompeu com o Partido Comunista Francês justamente pelo conceito de cultura stalinista. A censura desdobra-se como esta imposição de verdades fetichizadas à qual a arte não pode atender. Por esta razão, André Breton redigiu junto a Leon Trotsky um manifesto por uma arte independente e revolucionária, onde afirmavam a necessidade de que esta fosse livre de qualquer censura e inteiramente libertária. Em O Rito, Bergman traduz, talvez sem sequer ter lido, este manifesto para a linguagem cinematográfica. Uma peça que reune revolta e genialidade a um só tempo. Uma genial criação de anjos e demônios humanos.


9 comentários:

André disse...

Caramba, Eli...

Dava para fazer um artigo científico com esse seu post, hehehe. =P

Do moço, eu só assisti "O Sétimo Selo". Depois vou ver se consigo assistir "O Rito".

Agora, muito interessante os pontos levantados... Mas acho que a idéia de revolução e liberdade é uma idéia comum a muitos pensamentos. Quem estiver num governo capitalista, pode gritar "revolução e liberdade" para o socialismo. Quem estiver num governo socialista, grita "revolução e liberdade" para o outro lado.
Por isso, eu acho que de vez em quando é que a gente vê semelhanças com outras correntes.

Eli Magalhães disse...

Tenho o filme DVD, André... posso emprestar sem problemas. Isto se você não tiver nada contra a pirataria, é claro... heheehe...

Quanto ao Socialismo e o Capitalismo. Acho que a discussão é mais profunda. Tem um outro posto aqui no blog com o título "Sobre a morte do socialismo". É um artigo curto do Ricardo Antunes que fala sobre a União Soviética, o bloco Socialista e a Queda do Muro de Berlim. A idéia que Antunes desenvolve é justamente de que o Stalinismo não representou nada sequer próximo do Socialismo.

Neste post, inclusive, tentei demonstrar como os Surrealistas Franceses perceberam isto através de sua relação com a Cultura. Mesmo abandonando o Partido Comunista Francês, de viés stalinista, não abandonaram o Marxismo. A maior parte deles filiou-se a organizações Trotskistas. Os Surrealistas brasileiros seguiram, até um caminho semelhante. Mário Pedrosa é um dos fundadores do Trotskismo e do Surrealismo no Brasil.

Mas isto tudo é assunto pra outros posts :)... fico feliz que você gostou deste... abração!

André disse...

Legal, Eli. Pego emprestado quando voltarmos às aulas então. =P

Quanto ao Socialismo e o Capitalismo. Pra ser sincero, sou um completo ignorante no tema. Por aqui, represento a "massa", por assim dizer, hehehe. Mas vou ler o post que você citou.

Abração

Mário Júnior disse...

Janela pop-up para comentários. Assim é que se faz! \o/

Fernando disse...

Você acha esse filme o máximo porque "The Watchmen" ainda não estreiou...

Elliott disse...

pode crer um artigo cientifico!!
texto interessante

principalmentea parte do trotsky
:X
ehheehehe

Mário Júnior disse...

E aí? Como você acordou nesta segunda, rapaz?

Eli Magalhães disse...

Hahaaha... Antes Quixote, há um mês fazendo a felicidade de alguns trotskistas. :)

Acordei bem, Mário... depois que voltei pra casa e consegui dormir em paz... concordo com a Simone Ferro a seu respeito.

Emmanuel disse...

"Interessante" para esse texto eu acho bem pouco. Um primor isso sim, camarada! Muito bom mesmo. Tô até com vontade de ver esse filme =D Dp Bergman eu só vi "cenas de um casamento" - que é fantástico - e gritos e sussurros - que é mto bom tbm.