Antes Quixote!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008






Alonso Quijano, o Dom Quijote. Dom Quixote na tradução para o português. Protagonista do livro de Cervantes, eleito pela crítica, em 2002, como a maior obra de ficção da literatura mundial de todos os tempos. Um personagem cativante, sem dúvidas. Mas não é curioso o fato de ter sido escolhido o maior de todos os tempos em uma época que se localiza muito depois de seu próprio tempo?

Dom Quixote é um fidalgo que, após certa idade, preenche seu tempo com a leitura de contos de cavalaria muito em voga à sua época. Como resultado perdeu sua razão, passando a acreditar na veracidade histórica das peripécias de seus heróis literários. E, como que para manter a coerência, resolveu fazer de sua própria história um conto épico, para que merecessem ser contadas pelos quatro cantos suas façanhas e seus infortúnios heróicos.

O resultado é uma série de sandices e desventuras que transforma moinhos em gigantes, pangarés em majestosos cavalos de batalha, bacias de barbeiros em elmos abençoados. E, para completar, um camponês embrutecido e ambicioso em fiel escudeiro, e uma camponesa incauta em donzela de incontestável beleza, valor e fortuna.

Ou, pelo menos, é isso que aparenta à maior parte dos que cruzam o caminho do fidalgo durante suas incursões. Descrever-lhe-iam como um verdadeiro lunático, possuidor de idéias e valores anacrônicos, em declarada contradição com a realidade. Dono de um ideal que jamais se tornará concretude. O livro de Cervantes representou, por isso mesmo, uma cruel reviravolta quando publicado. Considerando os contos de cavalaria algo de extremo mau gosto, sua novela, com traços satíricos e realistas, representou o início de uma nova perspectiva na literatura mundial.

Talvez por isso mesmo tenha a obra galgado o título oferecido pela crítica. Mas até a poderosa crítica é refém de seu tempo. E este é um tempo de difícil compreensão. Sem grandes pretensões, poderia ser descrito como um momento histórico de crucial desenvolvimento de contradições. Ao mesmo tempo, há um aumento fantástico da complexidade e da articulação às quais todos os seres humanos estão submetidos. A malha social criada por essas contradições e complexidades aparece, aos indivíduos, como um algo imutável, uma realidade cruel, dura e impiedosa. A verdade é que o mundo humando aparece aos próprios homens como uma "segunda natureza", algo fora de seu controle, como se eles não pudessem pôr rédeas nesta malha cruel, dura e impiedosa, como se eles não tivessem qualquer relação com a forma como ela se comporta.

Como, enfim, se não pudessem transformar em realidade seus ideais. Melhor então adequar-se, adaptar-se, acomodar-se. Dom Quixote, no tom satírico em que é apresentado, representa justamente aquilo que não se deve ser. Uma pessoa que perdeu o contato com o real, e intenta construir o que ninguém poderia acreditar ser possível. Aquilo que, pelo incontrolável andar da história, foi atropelado, destruído e enterrado. Que ficou comprovado como um insucesso, um anacronismo, uma utopia. Melhor mesmo ver o que dá para ser feito por agora. Nada de pensar grande. Nenhum assalto aos céus. Quem sabe um remendo aqui e outro acolá, e uma confortável vida conquistada graças ao mérito próprio, individual e, por que não, egoísta.

Melhor que ser Quixote, talvez fosse ser Luciano Chardon (Ilusões Perdidas, Balzac) ou Rodion Raskólnikov (Crime e Castigo, Dostoievski). Há algo que estes três personagens possuem em comum. Todos, no início de suas trajetórias, possuem um forte apego a um ideal de grande significado. No entanto, também existe aquilo de que apenas Chardon e Raskólnikov podem se gabar: ambos são tão reféns de seu tempo quanto a crítica apaixonada por Quixote.

Luciano Chardon é um jovem, nascido em uma provícia francesa, com incomparável talento literário e beleza física. Faz parte da prole de uma família pequeno-burguesa, de pai farmacêutico e mãe oriunda de estirpe nobre. Com seu querido amigo, David Séchard, Luciano divide a paixão pela poesia e confissões sobre suas pretensões literárias. Almeja tornar-se um reconhecido poeta e acredita piamente em sua capacidade para tal. Seu amigo, por outro lado, intenta seguir o caminho dos inventores, buscando inovações na forma de como se produzir papel.

A história se passa no período da Restauração, na França. Um momento que, advindo da ressaca da Revolução de 1789, restituiu antigos títulos da nobreza e parte de seu status. A província habitada por Luciano divide-se em áreas reservadas à população nobre, outras aos burgueses, e demais às classes subalternas. Acontece que o poeta enamora-se da mais proeminente dama da corte local.

Este romance rende ao jovem seu deslocamento para Paris, o centro da cultura francesa, único local onde poderia tornar concretas suas pretensões de aumentar o patrimônio cultural de seu tempo como grande literato. A cidade, no entanto, demonstra sua impiedade logo de início. O jogo da nobreza local faz com que o romance entre o pequeno-burguês pobre e a dama emergente soe como uma afronta, separando o casal em pouco tempo após sua chegada à capital.

A partir daí, Luciano passa a perceber que estará se debatendo contra uma realidade constritora da qual não pode escapar simplesmente. Percebe que seus mínimos passos precisam do mais frio cálculo. Balzac, durante toda a obra, expõe as consequências da transferência daquilo que, por conveniência, se poderia chamar de "moral maquiavélica" para a vida privada. Chardon, tendo de viver em grande penúria durante um bom tempo em Paris vê-se forçado a abandonar a poesia, o ciclo de artistas e intelectuais empobrecidos do qual fazia parte, e a abraçar o jornalismo e a política (melhor dizer politicismo), como formas de galgar reputação suficiente e, eventualmente, recuperar o sobrenome nobre da família de sua mãe: de Rubempré.

O jovem, porém, não se encontrava preparado para enfrentar toda esta mudança. Traído e atacado por diversos personagens da cena parisiense que se valem dos mesmos métodos que os seus, e que temem seu talento e sua beleza, acaba aprofundando a miséria de sua família que, à sua espera na província, não recebe notícias suas senão súplicas por mais crédito e dinheiro. Termina por quase suicidar-se, quando, à beira de uma estrada, é encontrado por um sacerdote espanhol afortunado que resolve tomá-lo como protegido, explicando ao jovem o que não pôde apreender sozinho. Deveria deixar de lado seus ideais e seus valores em prol daquilo que realmente contava como seu objetivo. O padre é, para Balzac, a personificação daquela "moral maquiavélica".

Quanto a Rodion Raskólnikov, jovem estudante, russo, que habita São Petersburgo, convive com uma miséria extrema que afeta desde sua família a seu ciclo social mais próximo. Em determinado ponto, sua pobreza o força a abandonar a Universidade e seus estudos.

Raskólnikov, no entanto, é dono de uma impressionante inteligência e erudição. E tem consciência disso. Divide os homens entre os "ordinários" e os "extraordinários", sabendo que há possibilidades reais de encontrar-se entre os do último conjunto. Com base nisso, cria a teoria do "crime permitido". Um crime consumado em nome de um bem maior. Algo que, em seus primeiros passos, um grande homem deve executar para que, a partir disto, possa alçar vôos maiores, elevando, junto a si própio, os patamares atuais da humanidade. Como exemplo, Rodion considera Napoleão um dos maiores criminosos da história humana.

Embebido nessas considerações, o estudante passa a planejar o crime que deve servir para tirar-lhe da miséria, modificar suas condições de vida e permitir que suba os degraus necessários para abrir caminho à sua glória e de sua época. Encontra em Aliena Ivanóvna, velha usurária a quem penhora seus bens na tentativa de sobrevivência econômica, sua vítima perfeita. Convicto, toma as atitudes decisivas para concretizar suas pretensões e assassina a velha agiota. Como um acidente de percurso, acaba, também, comentendo o homicídio da irmã da velha, por esta ter aparecido de repente no local do crime e encontrado o assassino e o corpo.

Raskólnikov emerge do crime como o possuidor de considerável fortuna conquistada com o roubo das jóias acumuladas pela vítima. No entanto, não é capaz de aproveitar os frutos de sua ação. Subsequente ao delito, acomete-se de uma insuportável culpa, que o força a livrar-se de seu produto. A expiação do personagem o coloca em cada vez mais profunda degradação. Rodion não é capaz de sustentar suas ações. Mecanicamente, passa a buscar a sua própria punição.

Dostoievski é mesmo famoso por, em certos aspectos, ter previsto conclusões da psicanálise freudiana. O sentimento de culpa do estudante russo faz com que ele passe a sentir o desejo de punição. As teorias criminológicas psico-dinâmicas, que encontram bases em Freud, diriam, inclusive, que o cometimento do crime é já uma forma de busca do castigo, como alívio para neuroses e instintos incontroláveis do indivíduo. Ou talvez, o autor de Crime e Castigo quisesse apenas demonstrar, acompanhando boa parte do pensamento existencialista, que o sofrimento é mesmo uma forma de elevação do ser.

O importante é que, com base nisto, por diversas vezes o protagonista acaba por ver-se subitamente frente à polícia, com incontrolável desejo de entregar-se por seu crime. E, mesmo após o desfecho da investigação policial ter levado uma outra pessoa à prisão, o jovem entrega-se, confessando seus atos. Assim, é condenado a uma pena reduzida, graças a seus bons antecedentes, a ser cumprida na Sibéria.

Luciano e Rodion possuem, realmente, algo em comum com Quixote. Um impulso ético inicial que os encoraja a dar passos decisivos na busca por uma elevação não apenas individual, mas genérica, a ser apreendida por todos os seres humanos. Seja através da elevação da humanidade por via da arte, seja pelos feitos de um homem "extraordinário", ou pelas magníficas façanhas de um corajoso herói montado em seu cavalo de batalha. No entanto, Luciano e Rodion não conseguem levar a frente suas pretensões como Quixote.

Há que se fazer jus ao nosso herói. Poucos são aqueles que ousariam negar, ou mesmo reduzir, a força de vontade e incomparável dedicação com as quais Dom Quixote dota as suas convicções. E mesmo depois de indizíveis derrotas, ou mesmo vitórias fictícias, o cavaleiro mantém sua cabeça erguida. Não que isto torne seus feitos maiores. Mas, com certeza, o torna mais forte, mais cativante.

Luciano e Rodion estiveram, visivelmente, atentos ao real alcance de seus atos durante todo o seu percurso. Calcularam seus caminhos e amargaram, quando necessário, suas derrotas. O francês seria, indubitavelmente, ovacionado em seu tempo, tendo chegado ao fim da linha, praticamente ressucitando ao encontrar um protetor afortunado que o levaria a escaladas mais pretensiosas. Quanto ao russo, se não pudesse ser congratulado, seria, ao menos, perdoado. Cumprida sua pena voltaria ao convívio dos seus como alguém que cometeu um erro preenchido de boas intenções.

O que ambos não tinham é o que sobra em nosso cavaleiro: uma força de espírito quixotesca! O entusiasmo em valores e idéias que, em sua melhor forma, conserva-se inabalável. É certo que, no caso do fidalgo, convicção e sanidade não andavam de mãos dadas. Mas se se encontrava refém de uma realidade que, factivelmente, não poderia transformar, talvez isto deva ser reclamado ao próprio Cervantes, que optou por construir uma obra em que as idéias e os atos teriam menos concretude que o seu contexto.

Quanto a nós, vivemos um tempo que parece, cada vez mais, imutável, decidido, fixo. O fim da história, o fim das ideologias, o fim das utopias, o fim das classes sociais. O fim da picada. Uma realidade cruel, dura e impiedosa, que aparentemente escapou ao nosso controle. Melhor adequar-se, adaptar-se, acomodar-se. Afinal, só uma percepção quixotesca deste mundo poderia dignar-se a enfrentá-lo por seus flancos, e não por sua lógica. Mais respeitável vencer como Chardon ou fracassar como Raskólnikov, do que penar como um Quixote lutando por algo em que poucos acreditariam. Mas a verdade é que as coisas precisam mudar, ou pode não haver mais o que ser mudado futuramente. Então melhor ser confundido com um Dom Quixote em declarada contradição com a realidade, com dureza e com ternura, como se diz, do que com um Chardon ou um Raskólnikov, dóceis e submissos ao cotidiano. Por isso, antes Quixote! Antes Quixote que Chardon! Antes Quixote que Raskólnikov!

5 comentários:

Mário Júnior disse...

Eu gostei do Dom Quijote do Miguel de Cervantes (li justamente em 2002, no ano em que entrei na Ufal), mas não o considero a maior das ficções. De longe, Fausto de Goethe é o meu preferido.

A crítica especializada também elegeu Citizen Kane a melhor película da história do cinema [http://www.cinemacafri.com/noticias.jsp?id=1415], mas eu continuo preferindo o Spartacus do Stanley Kubrick. Enfim, é questão de opinião.

Sua análise do texto, num prisma desvelador do discurso - o que Cervantes queria dizer! -, mostrando que a adequação a uma realidade trágica é mais fácil de ser aceita do que uma possível perspectiva de mudança, me agradou bastante.

Não li - ainda, mas antes de morrer eu o farei! - o texto do Balzac que você cita (Ilusões Perdidas), por isso me sinto improficiente para tecer comentários sobre ele e a sua descrição.

Mas Crime e Castigo eu já li. E até vi um filme [não lembro o ano ou o diretor, faz muito tempo, ainda foi em VHS]. Nunca pensei em fazer essa ligação entre Raskólnikov e Dom Quijote, até pelas histórias serem completamentes diferentes.

Acho que Raskólnikov se assemelha muito mais a figura do Édipo (Sófocles) pelo peso que um assassinato toma em suas consciências. Faz um tempo que escrevi um texto para um blog antigo sobre isso.

Só no último parágrafo que você vai explicar o motivo de todas as associações: antes ser Quijote que um dos outros dois protagonistas, ainda mais numa época onde a centralidade do trabalho e a existência das classes sociais passa a ser fortemente questionada por conservadores.

Pois bem, bem-vindo ao mundo dos blogueiros, Eli! Eis que aqui estamos nós dois, ambos com blogs recém-nascidos. Agora, o mundo que nos aguente! :p

Mário Júnior disse...

Eli, você está parecendo um "emo" nessa foto do seu perfil.

Mário Júnior disse...

Eli, você é um mentiroso safado! \o/

Jorge Lucas disse...

Muito boa a analogia!
Cheguei meio atrasado mas concordo com o Mário na seguinte afirmação:

Eli, você é um mentiroso safado! \o/

Eli Magalhães disse...

Ora, não me venham com essa!

Você pega suas rixas e vem descontar aqui, senhor Mário Rufino?